matadouro

Noter: a chave

In travessia on September 22, 2008 at 2:07 pm

para cummings?

Fora de casa,
seco na calçada,
percebeu que percebia
no auge de sua raiva
que a chuva não mais chovia
nas águas que imaginava.

Confesso que não sei gostar de poesia. Ela sempre tende a me parecer falsa, forçada e desprovida de significado. Das poucas que consigo ler, no tédio do quarto, quando puxo algum livro recheado delas e leio versos aleatoriamente, já tentei entender o porquê. Desisti. Ontem me senti na obrigação de reler A Procura da Poesia, poema que tive a infelicidade de declamar em épocas de escola naquele enorme salão onde uma semana mais tarde viria a me formar e que, sempre que toca meus olhos, o entendo diferente. Mais, eu espero. Li e lembrei daquele outro em que, também em eras de ensino médio, li pro meu grupo de trabalho em sala de aula e não consegui terminar. As caras de tacho e surpresa dos colegas me faziam soluçar mais enquanto lia ei-la, a hora pequena/que desprevinido/te colhe sozinho/na rua ou no catre/em qualquer república;/já não te revoltas/e nem te lamentas,/tampouco procuras/solução benigna/de cristo ou arsênico,/sem nenhum apoio/no chão ou no espaço,/roídos os livros,/cortadas as pontes,/furados os olhos,/a língua enrolada,/os dedos sem tato,/a mente sem ordem,/sem qualquer motivo/de qualquer ação. Inevitável. Entrei na paranóia da música ser poesia. Pensei que não, pensei que sim. Não tenho cacife pra decidir, mas quando escuto uma música que nem gosto tanto pra escutar uma única frase, que nem devo entender direito, que nem faz muito sentido, somente soa bacana, tenho certeza que é poesia sim. She was born in spring, but I (pausa) was born too laaaaate. Acho que meu desgosto vem do fato de as pessoas se esconderem na poesia por acharem que ela lhes dá uma máscara de nobreza que elas simplesmente não têm. Vem do exemplo um dos últimos poemas – embora eu julgue que não posso chamá-lo assim, mas vamos lá – que li. É por ele que resolvi repensar todo esse conceito que não tenho. Provavelmente me seja simplesmente insuportável quando resolvem escrever sobre algo que já se sabe da mesma maneira que já se sabe. Sem em nada acrescentar. Acho que da poesia espero aquela pureza completamente impura, suja mesmo. E que agora talvez me dê conta de que o que há de comum entre aquelas que aprecio seja exatamente o que diz naquele primeiro poema que tenho lembrança, que me foi lido na biblioteca da escola, sobre furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Acho que andei viciada no Cummings, andei cheia de orgulho do amor que sentia. Era bonito e completo e o Sr. Edward ajudou. Ajudou mesmo eu ficando três horas tentando pegar tudo que apenas alguns versos queriam dizer. Suponho que nunca conseguirei, mas válido foi. Aposento o Cummings, me prendo em dissertaçõezinhas sem importância, completamente sem gosto como essa. Não perdôo, embora compreenda: mamãe mesmo era uma poetisa fracassada.